Publicando na Área de Engenharia 2 – Não se deve esquecer a ética

Ao contrário do que eu havia planejado inicialmente, o segundo post da série “Publicando na Área de Engenharia” vai tratar do que NÃO se deve fazer na hora de publicar um artigo.

O motivo desta mudança de direção se deve à recente denúncia publicada na imprensa de que um pesquisador e professor titular da Química da Unicamp teria fraudado 11 artigos publicados pela Elsevier (Folha de S. Paulo, EPTV Campinas). Segundo a denúncia o pesquisador teria falsificado imagens de ressonância magnética, caracterizando fraude supostamente detectada por 3 revisores independentes da Elsevier.

Confesso ficar bastante desconfortável com este tipo de denúncia. Em primeiro lugar, fico preocupada com a maneira como essas notícias são veiculadas pela imprensa, pois rapidamente elas se espalham, sem qualquer cuidado em se manter sob sigilo os nomes dos  envolvidos.

Na academia, o nome e a reputação de um pesquisador são muito importantes e qualquer ataque a esses valores pode resultar em consequências irreversíveis  para sua carreira. Ainda que uma possível  notícia futura diga que os pesquisadores envolvidos são inocentes das acusações, é bem provável que o estrago já esteja feito.

Além disso, tais acusações devem ser vistas com olhos não ingênuos pois, como no mundo corporativo, existe grande concorrência entre grupos de pesquisa e não se deve descartar a hipótese de ataques  maliciosos à reputação de um determinado pesquisador.

Supondo que as denúncias tenham fundamento, fico me perguntando porque motivo um pesquisador experiente de 68 anos de idade, membro da Sociedade Brasileira de Química e bolsista de produtividade do CNPq, se arriscaria dessa maneira. Posso imaginar duas hipóteses:

  1. O pesquisador se sentiu extremamente pressionado para manter uma alta “produtividade” de publicações.
  2. O pesquisador foi negligente ao não revisar o trabalho e concordar em ser coautor dos artigos em questão.

E que atire a primeira pedra o pesquisador experiente que nunca se sentiu em nenhuma dessas duas condições.

Tratando da primeira hipótese, como eu disse no  primeiro post da série, um pesquisador ao longo de sua carreira sempre será incentivado (eufemismo para “fortemente pressionado”) a publicar muitos artigos. Mas, se não adianta rebelar-se contra as regras do jogo, deve-se estar preparado para lidar com esta pressão e jamais considerar a “trapaça” como um caminho mais curto para se destacar.  Em outras palavras, espera-se de um pesquisador um mínimo de ética ao submeter seus artigos para publicação.

E como podemos definir a “ética” na publicação de um artigo? Existem algumas regras básicas adotadas pela comunidade científica:

  1. Se você já publicou um artigo em um evento ou revista, você NÃO deve submeter novamente este artigo ou partes dele a outros lugares. Ainda que muitas vezes se caia na tentação de copiar trechos ou parágrafos de um artigo antigo de sua própria autoria, esta prática deve ser evitada. Se um determinado conceito já foi explicado em um artigo anterior e precisa ser repetido para clareza do texto, não deixe de citar os trabalhos anteriores, deixando claras suas intenções.
  2. Submeta a um lugar de cada vez. Algumas revistas demoram meses para indicar a rejeição ou aceitação de um artigo e isso nos faz cair na tentação de submeter o mesmo artigo a várias revistas ou conferências ao mesmo tempo. Em muitos veículos esta é considerada uma prática inaceitável. No entanto, algumas conferências aceitam envio simultâneo a mais de um lugar, contanto que isto seja explicitamente informado.
  3. Não esqueça de incluir os créditos de imagens e figuras.Tanto em artigos quanto em apresentações, nunca utilize imagens tiradas da Internet ou copiadas de um outro trabalho sem indicar os créditos da imagem, fotografia e principalmente gráficos. Não suponha que pelo fato de uma imagem estar no Google Images, por exemplo, o uso da imagem é gratuito ou não é necessário indicar os créditos pela imagem. Não seja ingênuo de achar que ninguém irá perceber. Em breve teremos motores de busca capazes de encontrar todos os lugares que uma determinada imagem foi publicada.
  4. Cada artigo deve carregar uma ideia diferente, ou seja, deve ser original. É possível publicar vários artigos a partir do mesmo trabalho de pesquisa desde que cada um explore diferentes aspectos ou aprofunde resultados e ideias de um trabalho anterior.

Quando um artigo apresenta vários coautores, existe uma certa convenção de que o nome que aparece primeiro na lista de autores do artigo é considerado o autor principal. É suposto que este autor conheça o trabalho a fundo e seja completamente responsável por todo o conteúdo do artigo. Em artigos escritos por alunos de mestrado ou doutorado, é de praxe colocar o orientador como segundo autor e em seguida, os outros colaboradores do trabalho.

O ideal é que sejam considerados coautores apenas aqueles colaboradores que participaram da confecção do texto, mas algumas vezes são citadas pessoas que implementaram software ou hardware utilizados no projeto ou pessoas que ajudaram na coleta de dados.

Me parece bastante razoável que toda vez que seu nome vá ser colocado como coautor de um artigo, você faça questão de, no mínimo, participar do processo de revisão e ter completa ciência do que está sendo publicado. Afinal, você deveria estar preocupado com as ideias que seu nome sustenta.

Recentemente, um professor da USP foi demitido após um caso de plágio que envolveu inclusive a ex-reitora da USP que aparecia como coautora no artigo questionado. O caso de plágio se estabeleceu sobre imagens copiadas de publicação anterior, sem se dar créditos aos autores originais da UFRJ. Segundo informa a reportagem do jornal Folha de S. Paulo, o professor diz não ter havido má-fé mas um erro cometido por uma de suas ex-alunas de doutorado. A aluna em questão perdeu seu título de doutora. Essas são punições exemplares, para um problema que deve ser evitado a todo custo e que pode comprometer toda a reputação da pesquisa brasileira.

O CNPq já demonstra estar também preocupado com esta questão e comunica que irá criar uma comissão de investigação para denúncias de fraudes (veja nota da Folha).

Resumindo, em se tratando de construir uma carreira acadêmica sólida, é sempre bom entender que a Boa Ciência rima com Muita Paciência.

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