Santa Maria, uma cidade no país das tragédias anunciadas

Pode ser meio óbvio falar da tragédia de Santa Maria mas, como engenheira, me sinto obrigada a comentar a respeito.

É impossível não se emocionar com as histórias das famílias que choram as mortes de seus filhos ainda tão jovens. Mas meu coração fica ainda mais dilacerado quando eu penso “mas de novo?”. Mais ainda quando tenho a certeza de que esta não será a última tragédia que eu presenciarei neste país que acontecerá por negligência, falta de prevenção, maus projetos ou corrupção que favorece a poucos e mata muitos.

Somos um país que não dá valor nenhum para bons projetos de engenharia e para profissionais especialistas. Somos um país em que o profissional técnico que aponta problemas é rechaçado, considerado chato e muitas vezes é colocado de lado, por atrapalhar ou atrasar o “sucesso” de um projeto, a diversão e a alegria dos outros. E muitas vezes ele é o profissional a “ser subornado” para que as coisas andem mais rápido.

Somos um país que não sabemos, não valorizamos, não cobramos e não fiscalizamos o trabalho de órgãos como o CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura). Aliás, somos um país desprovido de órgãos de fiscalização e regulamentação sérios e confiáveis.

E não há como ser diferente. Por aqui os salários anunciados nos concursos dos órgãos municipais, estaduais e federais de regulamentação, planejamento e fiscalização são extremamente baixos se forem considerados o nível desejado de capacitação e responsabilidade destes profissionais. Pesquisadores da Embrapa, Engenheiros para a Anatel, Técnicos para ANT, tem salários de no máximo R$ 5000,00 anunciados nos editais. Enquanto isso, “Analistas Administrativos” concorrem a salários com cifras como R$ 9.000,00,  R$ 22.000,00.

O mais engraçado é ler o conteúdo abordado nos concursos para um profissional de Eng. Elétrica por exemplo. O candidato tipicamente tem que ter conhecimentos aprofundados de várias áreas, desde microeletrônica a sistemas de alta potência de energia elétrica.

Evitarei os telejornais pelos próximos 30 dias pois me recuso a continuar assistindo as notícias referentes a esta tragédia de visibilidade planetária. Desta vez, não serão apenas brasileiros que se emocionarão. Serão habitantes de todo o planeta que são suficientemente sensíveis para imaginar a tristeza e a dor de amigos e familiares das vítimas.

Pouparei minhas lágrimas de agora pois sei que em breve choraremos de novo.

Provavelmente será uma enchente devastadora no Rio de Janeiro, numa região em que as prefeituras permitem e não fiscalizam a construção de casas na beira de encostas que desmoronam durante as super previsíveis chuvas de verão.

Talvez sejam dezenas de pessoas mortas num engavetamento numa estrada com asfalto de quinta categoria, sem escoamento de água adequado ou com curvas que jogam o carro para fora da tangente.

Talvez seja um prédio que caia, um outro grande incêndio, pessoas esmagadas em pânico num corredor estreito do Metrô em SP, enfim…

Só sabemos que é uma questão de tempo para ligarmos a televisão num domingo pela manhã e nos emocionarmos mais uma vez com uma tragédia que poderia ter sido evitada. Não é fatalidade. É crime.

Se você caiu neste post por um acaso, e não é da área técnica, eu gostaria de deixar uma mensagem para você.

Entenda que um ENGENHEIRO salva vidas! Muito antes de elas sequer entrarem em perigo. Sempre que possível, valorize o trabalho deste profissional.

E se você for pai ou mãe, talvez seja prudente você ensinar seus filhos a identificarem situações de perigo. Ensine-os coisas básicas, tais como:

  • uma porta de emergência deve ser aberta para fora, e não para dentro do local, para evitar que as pessoas se amontoem na saída em caso de pânico;
  • ensine-os a observar as saídas de emergência sempre que entrarem num cinema ou num buffet de festa de aniversário;
  • se o lugar não tiver saídas de emergência, for totalmente fechado, sem ventilação e coberto de material inflamável, ensine-os que talvez seja melhor deixar a “diversão” para outro local e horário;
  • ensine-os a ler instruções de uso e sinais de advertência. Se alguém gastou seu tempo escrevendo estas instruções é porque elas são importantes. Isso evitará que eles lancem sinalizadores ou fogos de artifício dentro de locais fechados.

Pais, estejam alertas!

Nosso país não valoriza educação, engenharia e ciências…

Que perigo maior pode existir para seus filhos?

Minhas mais sinceras condolências aos familiares das vítimas de Santa Maria…

Que da dor de vidas perdidas, possa surgir ensinamentos perenes.

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