Os vinte centavos mais valiosos do Brasil

Neste momento em que as manifestações se espalharam pelo Brasil e muitos brasileiros tentam gritar e botar para fora vários sapos engolidos, em Campinas, a manifestação está agendada para a próxima quinta-feira, 20 de Junho, às 17:00h no Largo do Rosário. Deixo aqui, a quem interessar possa, meu chamado para que a pauta de redução de tarifas seja mantida acima de qualquer outra demanda que possa existir.

Espero que as manifestações no Brasil se tornem um hábito. Mas desta vez, defendo que o foco seja no transporte público coletivo.

Eu comecei a andar de ônibus em Campinas sozinha por volta dos 12 anos. O primeiro trajeto que fazia com frequência era para ir à escola de natação. Íamos eu e meu irmão, com aproximadamente 6 anos nesta época, sozinhos, sem pai e sem mãe (eram realmente outros tempos). O trajeto durava aproximadamente uns 20 minutos. Lembro-me do dia que eu me enganei sobre o ponto de parada e puxei “a cordinha” desesperada para que o ônibus parasse o mais rapidamente possível. O motorista parou no meio de uma quadra e eu desci apressada com meu irmão. O problema foi que o motorista não esperou meu irmão descer. Fechou a porta em cima dele e o pobre ficou lá, igual um sanduíche, no meio das portas, com uma cara de dar dó. Gritei antes que o ônibus partisse e consegui salvar meu irmão.

Alguns anos mais tarde, já quando eu tinha uns 14 anos, minha família se mudou para o Parque das Universidades, enquanto eu cursava o Colégio Técnico de Campinas (COTUCA) que fica próximo à rodoviária. Seguiram-se então aproximadamente 4 anos, como usuária diária, de segunda a sábado do sistema de transporte coletivo de Campinas. Era um trajeto de aproximadamente 40 min, mas o pior não era isso. O pior era a frequência com que os ônibus passavam. De segunda a sexta, os intervalos entre os ônibus eram de aproximadamente 50 minutos. E nos finais de semana, os intervalos poderiam ser de até 2 horas. Não é nem preciso dizer que a tabela de horários destes ônibus era inexistente. Ou seja, não adiantava muito você se programar. Pois se hoje o ônibus passou às 7:15h, amanhã passaria às 7:20h, e no outro dia ele passava muito cheio, fazia sinal de lotado e não parava para você. O pior mesmo eram os dias que ele resolvia adiantar uns 10 minutos. Toca você ver seu ônibus chegando e você sair correndo desesperada para conseguir pegá-lo, pois senão seriam cinquenta minutos de espera no ponto. Foi assim que rompi os ligamentos do meu tornozelo direito e acabei abraçada num poste todo cheio de xixi de cachorro e vômito de bêbado, chorando de dor.

Quando as aulas eram de sábado então, que terror! Saía da aula e tinha que ficar sob o sol do meio dia, morrendo de fome, num ponto de ônibus sem nenhuma cobertura da Rua 11 de Agosto, num lugar horroso e ermo, por no mínimo uma hora. Este ponto de ônibus é até hoje para mim, um símbolo de uma era da minha vida. Lá eu consolidei amizades. Lá eu pensei muito sobre a vida. Lá eu filosofei sobre a pobreza e a miséria do Brasil que me cercava. Lá eu comecei um namoro. Lá eu terminei um namoro. Lá eu fui assaltada umas quatro vezes pelos pivetes que ficavam perto da rodoviária. Lembro-me que eu já estava tão acostumada a ser assaltada que na última vez eu iniciei um diálogo com o pivete.

_ Ei, me passa o “passe”?

_ Ahh rapaz, sinto muito. Não vou te dar meu passe não… Só tenho esse para voltar para casa. Leva outra coisa. Quer uma caneta?

_ Pô, que folgada! Me passa a blusa então!

_ A blusa também não vou te passar porque é a melhor blusa de frio que tenho… (Apontei para meu amigo do lado) Leva o boné dele ou a blusa dele (Só fiz isso porque era muito meu amigo e sabia que ele faria isso com prazer de me defender).

O pivete saiu dali andando confuso, sem levar nada… Como eu disse, eles estavam sempre ali. Mas nunca ninguém os reprimiu. E eu não conseguia ter raiva deles…Cheiravam cola para esquecer a vida de M**** que eles tinham e talvez, para acelerar o fim dela.

E então finalmente o ônibus chegava e eu podia sentar e relaxar por 40 minutos e ficar olhando a paisagem da cidade. Todo santo dia. A mesma paisagem. As mesmas pessoas. O mesmo cansaço. É engraçado que até hoje eu de vez em quando cruzo com alguém na rua e fico com aquela sensação: “Acho que já conheço esta pessoa”. E aí meu cérebro fica matutando, matutando. E de repente me lembro que ela pegava o PUCC-SANTANA 2.21 todo dia comigo. Eu nunca conversei com ela. Mas ela faz parte da minha história…

E aí os desavisados devem pensar: “Nossa, que ótimo! Ela tinha todos os dias 80 minutos livres para ler e ouvir música”. Infelizmente não era bem assim…

Você já andou num ônibus recentemente em Campinas? Se você tiver problema de equilíbrio, ou for fraco, eu recomendo que não o faça. O ônibus é tão desengoçado e os motoristas são tão estressados que mesmo que você esteja sentado, provavelmente vai sair com uns dois roxos na coxa ou na perna de tanto que o bicho chacoalha e de tanto que você se bate. Se tiver que ficar de pé, força no braço e nas pernas para não ser jogado no colo de alguém. Está com crianças ou bebês de colo? Sinceramente? Pague um táxi, se puder… E se não puder, fique em casa. É mais seguro assim. Temo sinceramente pela sua segurança.

Imagine então os ônibus de 15 anos atrás. Nunca consegui ler mais do que um parágrafo de um livro dentro de um ônibus de Campinas. Passava mal, enjoava… Ouvir música? Bom, devo-lhe lembrar que há pouco mais de uma década não ouvíamos música no iPod ou no celular. Só tínhamos walkman ou discman. Com o ônibus chacoalhando, era impossível usar o discman. O CD pulava toda hora. Restava o walkman, mas confesso que eu usava pouco. O barulho dentro de um ônibus já é tão irritante, que somado à má qualidade de uma fita K-7, tornava o possível prazer num desprazer.

Aliás, este é um ponto que merece ser comentado. Se tem uma profissão que eu não recomendo para ninguém é a tal do motorista de ônibus. Já pensou ficar 8 horas por dia, tomando sol na cara, com aquele barulho infernal de um ônibus e no stress do trânsito? De vez em quando eles fazem greve. E isso é e sempre foi um grande transtorno para a população. Mas eu nunca reclamei da greve deles…

Mas eis que um dia eu cresci na vida, me tornei classe média alta e finalmente comprei meu primeiro carro. E nunca mais quis andar de ônibus. Nunca mais! Puta que o pariu!

E caio na gargalhada quando tem gente que vem falar de nariz empinado que “estamos em crise”, que as pessoas têm que se conscientizar para não usarem tantos carros. Que temos muitos carros nas ruas…

O QUÊ? Você vai falar para um pobre coitado que sempre andou de ônibus, levou sua esposa para a maternidade de ônibus, voltou para casa com o recém-nascido chacoalhando no ônibus, levou a mãe passando mal para o hospital de ônibus, vai fazer lazer de final de semana de ônibus e de tempos em tempos é assaltado ou fica encharcado de chuva; e que pela primeira vez “na história deste país” tem a oportunidade de se endividar por 5 anos e pagar o dobro do preço num carro vagabundo a DESISTIR DESSA IDEIA E CONTINUAR USANDO ÔNIBUS PORQUE É O MELHOR PARA O PLANETA?

Para cuidar do planeta, temos que cuidar do ser humano…

E você reclama das motos? Eu também acho uma droga este monte de moto na rua. Solução ruim, para um problema péssimo.

Hoje somos chamados a sair de nossas casas e a nos manifestarmos para a redução das tarifas de ônibus. Tenho convicção que esta é uma demanda mais do que justa e espero que este seja apenas o começo de um processo que obrigue nossos governantes a acharem soluções mais inteligentes e MAIS DIGNAS para o ser humano se locomover dentro de sua cidade.

Não vou nem comentar sobre o preço da tarifa de ônibus em Campinas. Desde que me conheço por gente, Campinas tem uma das tarifas mais caras do Brasil. Quantos dos preços de nosso comércio não são impactados pelo vale transporte que os empregadores fornecem aos seus funcionários?

Estes são os motivos pelos quais eu tenho convicção que temos todo o direito sim, para não dizer o dever, de nos manifestar:

Redução de tarifas, JÁ!

AGORA!

JÁ!

Não queremos este modelo nem mais um dia!

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3 ideias sobre “Os vinte centavos mais valiosos do Brasil

  1. lopira

    coisa de otario pohrra eu achava que era moedas valiosas ai voce vem com um texto chato desses nimguem merece acaba de vez com esse brasil seu lixo com seus textos perderdendo tempo das pessoas!

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