Para proteger o meio ambiente é necessário cuidar dos seres humanos

Toda virada de ano este blog acaba refletindo o meu lado introspectivo que inevitavelmente emerge durante esta época, principalmente durante os dias de férias que tiro com minha família.

Após mais de 1.000 km rodados com duas crianças pequenas no banco de trás, muitos mergulhos, contato com a natureza, perrengues e algumas sequelas (ingredientes indispensáveis de qualquer boa aventura), retornamos a Campinas para iniciar com baterias “full charged” 2014.

Fomos passear por Trindade, Parati e Angra dos Reis, nos afastando um pouco dos passeios tradicionais pela Baixada Santista ou pelo Litoral Norte Paulista.

Os três lugares que visitamos têm um denominador comum: todos ficam em lugares que combinam a exuberância da Mata Atlântica com paisagens muito bonitas, um mar muito tranquilo e cheio de embarcações. No entanto, não pude deixar de retornar destas férias carregando um quê de lamento.

Angra dos Reis, por exemplo, está longe de ser uma cidade bonita. Ainda na BR-101 (Rodovia Rio Santos) observa-se todo o tipo de arbitrariedade. Casas e comércios são construídos há pouquíssimos metros da rodovia, obrigando que redutores de velocidade (lombadas que fazem jus ao apelido “quebra-molas”) sejam instalados para evitar acidentes. Ciclistas e motociclistas, muitas vezes com crianças na garupa, não respeitam as regras de trânsito tornando o cenário para o motorista responsável, extremamente estressante. Inúmeros pedestres se arriscam ao atravessar a rodovia correndo carregando crianças ou seus pertences no colo, ainda que logo acima deles esteja uma passarela para a a travessia. Não se passa mais de 3 minutos sem se encontrar um carro com luz de freio ou alguma das lanternas queimadas. E não é preciso comentar que existem radares (muuuitos radares), mas dificilmente se vê um oficial de polícia realizando a fiscalização.

O centro de Angra dos Reis mostra claramente o contraste de um local onde pobreza e riqueza convivem muito perto. Um bom exemplo deste cenário é o Shopping Piratas e seus arredores. Atrás do shopping é possível se visualizar dois morros com casas muito humildes. Dentro do shopping, uma marina seca expostas como numa loja cheia de prateleiras e uma marina com iates e lanchas chegando e saindo para seus passeios.

Um outro exemplo deste contraste é o corredor turístico ou Estrada do Contorno de Angra dos Reis. Uma rodovia estreita que passa pelas principais praias de Angra. Quem se aventurar por essa estrada, além de correr o risco de viver uma experiência quase claustrofóbica, vai ver uma alternância de degradação do meio ambiente, sujeira, casas e população humildes e pousadas e hotéis de luxo que exploram praias de maneira quase que particular.

Essa visão é ainda mais clara quando se anda de escuna pela baia de onde  é possível se observar casas luxuosas ao pé do morro, com seus decks, jet skys e pedaços de areia particulares.

Com poucas opções de lazer no continente, o negócio é partir para os passeios de escuna oferecidos por quatro agências de turismo que ficam próximas ao Cais ou Estação de Santa Luzia. Os passeios são padronizados e as fotos apresentadas pelos agentes de turismo são maravilhosas. Praias de areia branquinha, água azul clara, peixes rodeando mergulhadores e tartarugas marinhas, ilhas de aparência paradisíaca. Impossível resistir à propaganda.

No entanto, já no início do passeio o guia avisa que devido ao verão quente um “fenômeno metereológico e ecológico” torna as águas turvas e que podemos observar uma espuma flutuando sobre a água.

Dezenas de escunas, cada uma com 50 a 150 turistas aproximadamente, competem pelo espaço de poucas paradas que, segundo entendi, elas têm permissão de atracar. Centenas de turistas então concorrem pelo seu “macarrão” e ficam flutuando por águas verdes e turvas.

Muito barulho, muita gente, muito barco, para uma natureza que realmente é exuberante, mas que não comporta tanta invasão.

Saí de Angra com a sensação de tristeza ao constatar que lá muitos, ricos ou pobres, tentam sobreviver ou aproveitar o turismo, custe o que custar, sobrando muito pouco tempo para planejar com cuidado o uso e a preservação do mar e da mata atlântica que cerca a cidade.

O Estado parece estar ausente. Permite que comércios de grande porte sejam construídos a poucos metros de uma rodovia federal, não faz com que as leis de trânsito mais básicas sejam respeitadas, não fiscaliza a ocupação da orla marítima, não se faz visível na garantia de segurança e o mais importante: não está cumprindo com seu papel de suprir educação de qualidade mínima aos seus cidadãos.

Dessa maneira, penso que Angra dos Reis represente o típico exemplo de que a preservação ambiental de uma região deve, necessariamente, passar pelo tratamento dos problemas econômicos e sociais que acometem seus habitantes sendo, o maior de todos, a deficiência na educação.

E a educação a que me refiro não é apenas aquela que está faltando às camadas mais carentes de nossa população mas aquela que falta também àqueles que, apesar de saberem ler e escrever muito bem, não hesitam em ignorar leis, em prol de possuírem uma ilha, um pedaço de areia limpa e “privada” e  que colocam seu bem estar e conforto acima de qualquer outro interesse, construindo hotéis cinco estrelas e casas de luxo ao lado de bairros que sequer tem saneamento básico e coleta de lixo.

Não, a crítica não é ao fato de poucos terem muito e muitos terem pouco.

A crítica é à falta de compreensão de que enquanto as coisas não forem razoáveis para a grande maioria, não serão razoáveis para ninguém. Pois tratando-se de danos ambientais, as consequências serão para todos.

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